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Existe muita diferença na dieta de ordenhas feitas por robô?
Descubra como a nutrição em sistemas de ordenha automatizada pode otimizar a produção de leite e o comportamento animal nas fazendas.
Os sistemas de ordenha automatizada (AMS) estão transformando a maneira como as fazendas leiteiras operam, oferecendo soluções inovadoras para enfrentar desafios como escassez de mão de obra, enquanto melhoram a eficiência e a qualidade de vida dos produtores. Além dos aspectos de alojamento e manejo, a nutrição emerge como um elemento fundamental para otimizar a produção e a saúde das vacas em sistemas AMS.

Um recente estudo realizado pelo professor Trevis De Vries no Canadá (Soest et al., 2024), teve como objetivo descrever quais são as estratégias feitas pelos nutricionistas para fazendas que usam robô. Tanto na pista de alimentação quanto no concentrado oferecido no AMS, além de determinar quais componentes e nutrientes eram utilizados para à produção de leite e estimular o comportamento animal. O levantamento foi feito em 160 fazendas de diferentes regiões do Canadá (Leste do Canadá [Leste] = 8, Ontário [ON] = 76, Quebec [QC] = 22 e Oeste do Canadá [Oeste] = 54).

Características dos Rebanhos

Os rebanhos tinham em média 126 ± 117 vacas em lactação, ordenhadas em 2,7 ± 2,2 unidades de robôs por fazenda. Isso resultou em uma média de 47,1 vacas em lactação ordenhadas por unidade, inferior à capacidade sugerida de 60 vacas/robô. As fazendas neste estudo tinham uma paridade média de 2,4 ± 0,3 e uma média de 170,7 ± 12,8 dias em leite (DEL).

Comparando com os dados do Brasil, podemos inferir que os rebanhos brasileiros estão trabalhando com média de mais animais em ordenha. Acredito que no Brasil essa característica está atrelada ao constante crescimento do rebanho e as condições favoráveis para isso, na tentativa de otimização dos barracões. Também pela não adoção do “Dairy on Beef”.
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Formulação de Dietas e Amostras de Alimentos

Com base nas formulações de dietas recebidas, 60% das fazendas do estudo utilizavam silagem de milho como sua principal fonte de forragem. Diferentes tipos de pré-secado eram a segunda fonte de fibra. A maioria das fazendas que utilizavam pré-secado como sua principal fonte de forragem residia no Leste, ON e QC. Três fazendas no total (1,9%) utilizavam feno como sua principal fonte de forragem. As diferenças observadas no tipo de forragem utilizada na fazenda podem ser atribuídas a fatores regionais e ambientais.

O ingrediente principal do concentrado da TMR era o milho. Semelhante à distribuição de silagem de cevada, 14,4% das fazendas tinham grãos de cevada como sua principal fonte de concentrado, mas dessas fazendas, 91% estavam no Oeste. O que corrobora com as características daquela região ligadas principalmente ao período curto para plantio e corte do milho. A maioria (61%) das fazendas fazia a inclusão de gordura de palma.

A grande maioria das fazendas alimenta ração peletizada no robô, com as fazendas restantes alimentando uma ração texturizada. 45,2% dos rebanhos incorporaram trigo (principalmente farelo de trigo) como principal ingrediente em sua formulação de concentrado no robô. O segundo ingrediente mais comum era o milho, seguido do grão de cevada (a maioria no oeste). Um outro estudo aponta que as vacas aumentam as visitas ao robô quando as rações possuem em sua composição trigo ou uma mistura de cevada e aveia em comparação com o milho.

Farelo de soja foi a fonte de proteína mais comum, com farelo de canola como o próximo. As fazendas restantes alimentavam farelo de trigo ou farelo de glúten de milho, como a principal fonte de proteína de seu concentrado para robôs. A diferença entre farelo de soja e canola está ligada a disponibilidade na região. Estudos sugerem que o farelo de canola é mais atrativo e trazem resultados melhores para animais que estão em sistemas robotizados.

Com base nas formulações de dietas, mostraram diferentes estratégias de manejo alimentar ao longo da lactação, sendo uma mudança no aumento da proporção de ração no robô de acordo com os dias em leite. Estudos anteriores mostraram que as vacas ajustam sua ingestão de TMR quando há mudanças na alocação de concentrado robô. A média prevista de concentrado no robô, com base nas formulações de dieta, foi de 4,3 kg/dia. Estudos anteriores observaram que as vacas consomem pellets a uma taxa específica durante os primeiros minutos de alimentação, o que pode resultar em uma ingestão teórica de entre 3,85 e 7,84 kg/dia. Dessa forma, os diferentes rebanhos trabalharam ou com o aumento, ou com diminuição da quantidade de ração no robô para essa meta.

Produção de Leite

As vacas produziram uma média de 37,0 kg/dia. Fazendas com predominância da raça Holandesa produziram +7,3 kg/dia a mais de leite do que rebanhos não Holandeses. Nas fazendas do estudo, o DEL médio foi de 170,7 dias e foi observado que a cada 10 dias na média do rebanho estava associado a -0,63 kg/dia a menos de leite por vaca/dia.

Considerando a raça e o DEL médio do rebanho, uma maior concentração de gordura na TMR (%EE) foi associada a uma maior produção de leite. A %EE da TMR média foi de 4,43% na MS. Cada ponto percentual adicional na %EE resultou em +0,1 kg/dia de produção de leite. O tipo principal de forragem utilizado na fazenda também influenciou a produção de leite, com fazendas alimentando com silagem de cevada ou milho tendendo a ter uma produção de leite maior em comparação com aquelas que alimentavam pré-secado.

Produção e Teor de Gordura do Leite

Nas fazendas estudadas, as vacas tiveram uma produção média de gordura no leite de 1,51 kg/dia e um teor médio de gordura de 4,09%, semelhante à média nacional canadense de 4,07%. Controlando as diferenças de raça e DEL, observaram que uma maior concentração de gordura na TMR (% EE da TMR) está relacionada a uma maior produção de gordura no leite. Cada aumento adicional de 1,0 p.p. na % EE da TMR resultou em +0,05 kg/dia de produção de gordura no leite. A produção de gordura foi inversamente relacionada à concentração total de proteína bruta (PB) oferecida no total por dia. Cada aumento de 1 p.p. na % total de PB foi associado a uma redução de -0,04 kg/dia na produção de gordura no leite. A diferença é pequena e provavelmente não relevante biologicamente.

O teor de gordura no leite está diretamente relacionado à relação entre a alimentação concentrada e a mistura total de ração e à quantidade total de energia líquida fornecida pela dieta. Aumentar a proporção de energia líquida na dieta está associado a um aumento no teor de gordura no leite, enquanto aumentar a concentração de carboidratos não fibrosos na ração está associado a uma redução no teor de gordura. Essas descobertas sugerem que ajustar a composição da dieta pode ser uma estratégia eficaz para controlar o teor de gordura no leite.

Produção e Teor de Proteína no Leite

As vacas nas fazendas estudadas produziram, em média, 1,25 kg/dia de proteína no leite, com um teor médio de 3,38%, similar à média nacional de 3,33%. Os rebanhos Holandeses apresentaram uma produção de proteína no leite ligeiramente maior em +0,2 kg/dia, mas com um teor de proteína no leite ligeiramente menor em −0,3 p.p. em comparação com os demais. Cada aumento de 10 dias na média de lactação do rebanho foi associado a uma pequena redução na produção diária de proteína no leite, mas a um aumento no teor de proteína no leite. Da mesma forma, cada aumento de 1 lactação na média de paridade do rebanho foi associado a um pequeno aumento no teor de proteína no leite.

A produção de proteína no leite nas fazendas estudadas aumentou com a maior densidade energética da dieta, indicada pelo aumento do NEL da TMR e do % total da MS, mas diminuiu com o aumento do percentual de forragem na TMR. Cada aumento de 10 p.p. no % de forragem na TMR reduziu a produção diária de proteína em 0,03 kg/dia, enquanto cada aumento de 10 p.p. no % total da MS aumentou a produção diária de proteína em 0,05 kg/dia. O aumento do NEL da TMR em 0,1 Mcal/kg de MS resultou em um aumento de 0,02 kg/dia na produção de proteína no leite. Isso sugere que ajustar a dieta para aumentar a densidade energética, reduzindo a quantidade de forragem na TMR, pode aumentar a produção de proteína no leite. Por outro lado, o tipo de forragem teve um efeito negativo no teor de proteína no leite, enquanto um maior teor de amido na dieta aumentou o teor de proteína no leite.

Frequência de ordenha

A frequência de ordenha encontrada foi uma média de 2,77 ordenhas por dia por vaca e 1,5 recusas de ordenha por dia. Esses resultados são semelhantes aos de estudos em todo o mundo. A frequência de ordenha resultou em um intervalo médio de 8,7 horas entre ordenhas.

Fazendas com sistema de tráfego livre tiveram em média 0,6 ordenhas a mais por dia do que aquelas com sistema de tráfego direcionado. Embora alguns estudos antigos tenham relatado maiores frequências de ordenha em sistemas direcionados, outros estudos encontraram altas frequências de ordenha em sistemas de tráfego livre.

A frequência de ordenha foi positivamente relacionada com a frequência de vezes que era empurrada a alimentação e negativamente relacionada com o % CNF da TMR e o % total de forragem na ração. Cada 5 empurradas adicionais de alimentação estavam associadas a +0,67 ordenhas por vaca por dia.

Cada aumento de 1 lactação média do rebanho foi associado a +0,9 vezes mais visitas recusadas por dia. Fazendas com sistemas de tráfego livre tiveram mais recusas de ordenha por dia do que aquelas com tráfego direcionado. A quantidade de concentrado oferecido no robô também influenciou as recusas.

Associações entre Comportamentos de Ordenha e Produção

Observou-se uma associação positiva entre a frequência de ordenha e a produção de leite, gordura e proteína. Cada ordenha adicional bem-sucedida por dia foi associada a um aumento na produção diária de leite, gordura e proteína. Por outro lado, as recusas de ordenha estiveram associadas negativamente à produção de leite e positivamente ao teor de gordura e proteína do leite. Recusas excessivas podem impactar negativamente o comportamento subsequente da vaca, resultando em menor ingestão de alimentos e menos descanso. A redução na produção de leite devido a mais recusas resultaria em um leite com maior teor de gordura e proteína, pois seria menos diluído. Infelizmente, as configurações individuais de rebanho e vaca não puderam ser registradas, complicando essa relação.

Nas fazendas estudadas, as vacas apresentaram durações médias de ordenha de 4,7 ± 0,47 minutos por ordenha e uma duração média de visita de ordenha de 7,1 ± 0,59 minutos por visita. Uma maior duração de ordenha esteve associada negativamente ao teor de gordura do leite, enquanto a duração da visita de ordenha esteve negativamente associada tanto ao teor de gordura quanto ao de proteína do leite. Cada minuto adicional na duração da ordenha foi associado a uma redução de 0,12 pontos percentuais no teor de gordura do leite. Da mesma forma, cada minuto adicional na duração da visita de ordenha foi associado a uma redução de 0,12 pontos percentuais no teor de gordura do leite e 0,06 pontos percentuais no teor de proteína do leite.

CONCLUSÃO

Neste estudo, os pesquisadores demonstraram as estratégias nutricionais, incluindo as dietas formuladas e os principais ingredientes que os rebanhos leiteiros canadenses com robô implementaram. Uma maior frequência de ordenha foi associada a maiores rendimentos de leite, gordura e proteína.